Dez coisas que eu gostaria que tivessem me contado antes

Segunda-feira, dia 25 de Maio, faz um ano do lançamento oficial do meu primeiro livro (e até agora único publicado) Mocassins e All Stars. Inclusive, eu já disse, estou cheia de campanhas comemorativas, inclusive uma promoção valendo um exemplar autografado lá na fanpage. Sei que já disse, mas não custa nada repetir que a festa de aniversário e de relançamento da nova edição será nesse domingo, dia 24, no Parque das Ruínas, em Santa Tereza, aqui no Rio de Janeiro. Mas enfim, a coluna de hoje é de conselhos. Dez coisas que eu queria que tivessem me contado antes, um ano atrás, no meu primeiro dia de mercado. E que eu espero que sejam úteis para vocês. Se você estiver achando tudo muito depressivo, pule para a dica 10. Ela é a mais importante.

1) O difícil não é publicar o livro, é o que vem depois
Hoje o mercado editorial é muito mais acessível do que era há alguns anos. Antes, ninguém estava interessado em publicar livros nacionais e os escassos autores daquela época tinham que se virar nos 30 para serem notados por alguma editora. Achar uma editora não é mais um problema tão grande. Claro que conseguir entrar para uma BOA editora, uma editora GRANDE, uma editora de PESO, ainda é muito difícil... Mas é possível entrar numa editora menor, mas compromissada com o autor e com seu trabalho, se você procurar direitinho. 

Procurar direitinho foi uma coisa que eu NÃO FIZ. Eu recebi o convite para publicar a primeira edição de Mocassins e All Stars porque minha primeira editora me achou na internet (onde eu publiquei o livro na íntegra), achou tudo muito fantástico e cismou que queria publicar o livro. Eu não tinha planos de publicar a princípio, mas quem diz não para um sonho quando ele bate a porta?! Conclusão, assinei o contrato sem nem pesquisar mais sobre a editora e... Foi tenso. O livro demorou mais de quatro anos, QUATRO ANOS, para sair. Desde a assinatura do contrato até 25 de Maio de 2015, passaram-se mais de quatro anos de muita angústia.

Talvez tenha sido até bom que ninguém tenha me dito que o mais difícil vinha depois, porque com tanto sofrimento no antes, talvez eu desistisse. Mas sim, o mais difícil vem depois, quando a sua casa está cheia de livros que precisam ser vendidos. Ou quando os livros estão no estoque da editora e precisam circular. Você precisa fazer com que as pessoas conheçam você, sua obra, seu trabalho e sua vida. Chega a ser um pouco desesperador não saber nem por onde começar. Mas calma que a vida se ajeita, desde que você tenha coragem, perseverança e siga as dicas dos que estão a mais tempo que você no mercado.

2) Sabe sua timidez? Então, esquece.
Eu sempre fui uma pessoa muito tímida, muito retraída e que me sentia muito desconfortável em ambientes nos quais eu não conhecia ninguém. Tipo, eu era aquela pessoa que NÃO IA para festa de aniversário de alguém se eu só conhecesse o aniversariante. Na verdade, até hoje eu prefiro não ir, mas aprendi a superar e participar, se for preciso. No mundo literário, uma bela cara de pau é requerida. Quem tem menos vergonha (mas ao mesmo tempo mantém o nível social, o bom senso e etc) é quem se dá melhor. Afinal, você precisa promover seu livro. As pessoas precisam te conhecer. Em grandes feiras, você vai perder a conta de quantas vezes contou sua história e a sinopse do seu livro. No final do dia a garganta chega a estar dolorida.

Esse processo foi muito difícil pra mim - e ainda é. Acho que um tímido nunca deixa totalmente de ser tímido. Eu me esforço muito para ser extrovertida, para falar bem em público, para cativar o público e vender meus livros, mas é complicadíssimo. Eu sinto como se estivesse deixando uma parte de mim soterrada, sabe? E ela fica gritando dentro, pedindo pra sair. Enfim, acho que um tímido nunca deixa de ser tímido, mas supera alguns níveis na escala da vergonha. Ou seja, vá se preparando desde agora. Treine seus discursos no espelho, a sinopse que você vai contar, sua história e sua apresentação para o mercado.

3) Sabe tempo para escrever? Também esquece.
A sensação que eu tenho é que eu não tenho tempo para nada e o que acaba sendo mais sacrificado é escrever. O que é muito louco, se você for parar de pensar, por que o que é um autor sem novos livros? Mas normalmente o que acontece é que o processo de divulgação e venda do primeiro exemplar é tão intenso e toma tanto nosso tempo que acabamos sem inspiração, sem tempo e cansados demais para escrever.

Eu demorei quase um ano para entender que isso não era viável. Eu precisava continuar escrevendo, não só porque eu precisava de novas obras, como autora, mas especialmente porque eu precisava disso para me manter sã. Então, dê seu jeito. Descubra qual é a melhor maneira de se forçar a escrever um pouquinho por semana, mesmo que não seja o projeto-do-próximo-livro. Mesmo que seja só um conto, um projeto menos importante, qualquer coisa. Coloque o cérebro e os dedos para funcionar. Existem vários cronogramas na internet que ajudam o autor a manter um ritmo de escrita, estipulando uma cota diária, semanal, mensal... É só dar uma procurada. Para mim, o que funcionou foi o Wattpad. Saber que eu sou lida me motiva a escrever semanalmente um capítulo novo e não me deixa enferrujar. Melhor plataforma!

4) Dinheiro, então? Nem lembre.
Os custos de um livro são altos. Mesmo que você dê a sorte de conseguir uma editora boa, que não cobre pela edição do livro (ou pelo menos não cobre muito), os gastos continuam existindo. Brindes (marcadores, bottons, adesivos, imãs, o que você puder fazer para atrair público), inscrição em feiras, viagens para outros estados, aluguel de stands nas Bienais... Tudo isso vai fazendo um pequeno roubo no nosso orçamento e pode ser fatal se não for bem organizado. Escritores no início das carreiras, especialmente aqueles que estão se dedicando EXCLUSIVAMENTE a literatura, estão  quase sempre passando perrengue, contando as moedas e rezando para ganhar na loteria.

Nunca fui boa em finanças. Eu sou muito desapegada com dinheiro, assim. Acho que em outra vida devo ter sido hippie ou algo do gênero. Então, para pegar no tranco e arrumar minha situação financeira, eu demorei um pouco. Mas não demore. Quanto antes melhor. Minha sugestão é: pegue uma quantia inicial do seu dinheiro, aquele que você tem guardadinho e invista na literatura. Sei lá, digamos, mil reais. Esses mil reais, a partir de então, são seu dinheiro-para-livros. Sugiro, inclusive, que você abra uma conta exclusivamente para ele (eu tenho uma conta poupança, para fugir de taxas). Esses mil reais vão ser o dinheiro que você vai usar para fazer seus investimentos literários. Todo dinheiro de venda dos livros, você também deve jogar para essa conta especial de livros. E movimentá-lo. Dinheiro parado é ok, mas dinheiro sendo investido em outras formas de divulgar seu trabalho traz maior benefício no longo prazo.

Claro que essa é uma escolha pessoal e, muitas vezes, a realidade é diferente. Por vezes pego "emprestado" dinheiro do livro para alguma despesa pessoal. Mas aí eu anoto num caderninho que estou "devendo para mim mesma" e, assim que for possível, regularizo a situação.

5) Desenvolva seu skill social
Não bastasse você ter que superar sua timidez, você ainda vai precisar desenvolver esse trato social, que talvez você nem tenha. Eu tinha muito pouco. Quer dizer, falando assim parece que eu era super antissocial, o que não era o caso. Mas, muitas vezes, eu preferia não ir a eventos que não deixassem plenamente confortável, não falava com pessoas que eu não conhecia direito, não fazia a menor questão de conhecer gente nova... Claro que tudo isso também era muito por causa da minha timidez, mas enfim. Depois que eu entrei no mundo literário percebi que eu tinha que fazer o extremo oposto de tudo que eu fazia, rs. É mais do que necessário socializar porque, adivinha?, no mundo artístico os contatos valem MUITO.

Ou seja, conheça o máximo de pessoas que você puder, seja sempre simpático - mesmo com quem você não conhece ou com quem você não vai com a cara, procure ser sempre neutro nas discussões, se interesse pelo trabalho dos seus colegas escritores, participe de eventos literários, faça parceria com blogs literários. Se faça presente. Converse, interaja, pergunte e ajude sempre que possível. 

6) Supere o fato de que seu livro provavelmente não vai ficar como você imaginou - e nem sempre isso é algo ruim
Muitos autores tem uma ideia idealizada do livro, em sua versão publicada. Antes mesmo de mandar para editora já imaginam a diagramação, a capa, tudo nos mínimos detalhes. Nem sempre todos os nossos sonhos se realizam - e nem sempre isso é ruim. Se você está numa editora que te dá espaço para palpitar sobre os detalhes, ótimo! Sinta-se livre para falar o que pensa, mas também ouça com cuidado tudo que eles tem a dizer. A editora normalmente sabe bem mais do que nós nesse sentido e a opinião dela deve ser ouvida.

Eu mesma tinha uma ideia totalmente diferente para a capa de Mocassins e All Stars e hoje não consigo imaginar o livro com uma capa diferente da que ele tem. As diferenças de diagramação da primeira edição para a segunda foram TAMANHAS (tem vídeo falando disso no meu canal) e eu amei demais o trabalho da minha segunda editora, ainda que eu nunca tivesse pensado em fazer nada daquilo. Então, abra um pouco a cabeça e aceite novas sugestões.

7) Prepare-se para a rejeição
Acho que o maior sonho de todo escritor é que, depois de publicado, seu livro se torne instantaneamente um bestseller. Mas a verdade é que temos que aprender a lidar com a rejeição, desde o início, desde o primeiro NÃO que recebemos da editora. A J.K. Rowling foi rejeitada DOZE vezes, a Meg Cabot também foi rejeitada um milhão de vezes e olha só onde estão as duas agora... 

Mas talvez a rejeição que doa mais seja a rejeição do leitor. Gente que passa direto quando você tenta abordar, que nega seu MARCADOR DE PÁGINAS (sério gente, quem nega marcador de páginas?) e que olha para você como se você tivesse algum tipo de doença infecto-contagiosa letal. É complicado lidar com isso no início, mas tudo bem. A gente tem que entender que nem sempre nós agradamos, nem todos são nosso público-alvo e que ainda tem muita gente com preconceito de autor nacional por aí (bem menos do que tinha, mas ainda tem sim). 

Tem um quote ótimo da Aimee Oliveira, no livro Papel, Caneta e Ação que diz: "E  não  era  porque eu  confiava  na qualidade  do  meu  trabalho  que  eu  ia  confiar  na  qualidade  de julgamento  de terceiros". 

E é isso aí. Para cada não, existem os sim.

8) Em algum momento você vai achar que sua vida está resumida a literatura. Respire e se afaste.
Uma vez dentro, a sensação que dá é que você nunca consegue sair. Hoje o feed do meu facebook é composto 99% de postagens sobre literatura. No meu instagram já deve ter mais gente que eu não conheço do que gente que eu conheço. Eu sempre esqueço de entrar no meu e-mail pessoal, porque considero o literário mais importante. Sacrifico aniversários de amigas minhas para participar de eventos literários. Às vezes dá um cansaço. Uma sensação de soterramento. A impressão que dá é que sua vida está resumida a literatura, aquelas pessoas e aquele convívio.

Calma. Respira. Fecha tudo e respira. É muito importante manter a convivência com o mundo, com a família, com seus amigos de outros lugares. Ninguém gostaria de viver confinado 24h dentro do trabalho, né? E nem nós merecemos isso. É importante tirar um tempo para você mesmo, mesmo que isso signifique ficar alguns dias ou algumas semanas sem se fazer presente no mercado e sem vender livros. É uma questão de sanidade, acho. 

Tenha ciência de que a literatura é sim algo MUITO importante na sua vida, mas ela não pode ser TUDO. Se esse sentimento for frequente, talvez uma das opções seja criar redes sociais de convívio pessoal, com nomes menos acessíveis (quase fakes, digamos assim). Pondere quais eventos sociais da sua vida pessoal você quer ir e deve ir, bem como quais eventos literários serão benefícios para você. Dê o peso certo as coisas - e esse peso pode e deve variar em diferentes fases da sua vida - e tente se manter sempre feliz. Isso é o mais importante.

9) Torne-se digital. Mais do que você já é.
Um diferencial incrível da literatura nacional é que o contato com os leitores é muito mais direto. Eles podem te mandar um e-mail, uma inbox, comentar na sua foto do instagram, mandar um tweet, enfim, fazer um monte de coisas. Quer dizer, eles só podem fazer isso se você estiver presente na internet. É muito difícil conciliar todas essas informações, mas tente fazer seu melhor. As pessoas entendem se você não conseguir responder na hora, mas não deixe de responder. Às vezes eu acho inboxes perdidas de meses atrás, mas respondo mesmo assim, pedindo desculpas. Esse contato direto deixa o leitor muito feliz, interessado em você e fidelizado com sua obra. 

Torne-se digital e me adicione nas mídias.

10) Coisas ruins acontecem muito mais do que a gente gostaria, mas as coisas boas fazem tudo valer a pena
Esse é o ponto mais importante. Dá vontade de desistir? Dá sim. Dá vontade de chorar em posição fetal? Oh yesss. Dá vontade de correr para as montanhas? Com certeza... Mas nesse momento, o que temos que fazer é lembrar de todas as coisas maravilhosas que aconteceram na nossa jornada e elas tem que dar gás para seguir em frente. Eu fiz uma jarrinha da felicidade e, toda vez que eu recebo um comentário positivo, um convite ou qualquer outra bonança acontece, eu anoto e jogo lá dentro. A maior parte é de fatos literários, mas tem alguns fatos pessoais também. Quando estou num momento complicado, vou lá, abro, leio tudo, choro tudo que preciso e acordo no dia seguinte revigorada para continuar a caminhada. Sim, é uma caminhada árdua. Mas temos que continuar caminhando, adequando nossos sonhos e realizando tudo, mesmo que aos pouquinhos... 

Comentários