Canal da Sophie Kinsella

Qualquer leitor que conhece o PN desde 2015 sabe o quanto eu adoro a autora Sophie Kinsella. Agora em maio, a Editora Record lançou o Minha Vida (não tão) Perfeita. Mas foi através do anúncio de um novo livro, que será lançado em 2018, que eu fiquei sabendo da existência do canal dela.


Até agora a autora tem apenas quatro vídeos postados no YouTube. No entanto, já é possível ver que o seu bom humor não fica apenas nos livros. Em um deles, Sophie faz uma comparação entre espiões e escritores. E o primeiro vídeo foi uma tentativa da autora falar em italiano para agradecer aos fãs que ela encontrou em sua turnê pela Itália.
Surprise Me foi o foco do último vídeo. Ela disse que tinha acabo de terminar de escrever o livro e queria dividir essa alegria com a gente. A história é sobre um casal que ao se darem conta que terão muitos anos juntos pela frente decidem que precisam surpreender um ao outro todos dias (se eu não entendi errado). Mas como estamos falando de Sophie Kinsella é claro qu…

Crônica: Fé na Humanidade


Resultado de imagem para gato marromO bichano virou no arco de pedra. Era já noite, mas o chão estava muito quente por conta sol forte que havia batido durante o dia. O gato ronronou pra si mesmo quando sentiu dor no estômago. Há quantos dias não comia? Fez nova curva a esquerda, procurando por civilização.
          Encontrou. Ou o mais perto disso que se pode encontrar nas vielas da Lapa numa quarta-feira à noite. Despercebido, entrou quase hipnotizado num ambiente iluminado que cheirava a linguiça. Esgueirou-se pelos cantos, fugindo dos passos trôpegos de um senhor que, se o viu, parecia querer matá-lo com pisadas fortes. Achou abrigo perto do pé da mesa de sinuca vazia e, de lá, analisou suas possibilidades.

        Que bicho estranho o ser humano. Na primeira mesa visível de onde estava, o animal viu dois casais jogando cartas com gritos escandalosos e muitos copos. Não havia amor naquela mesa. Nem entre os componentes de cada casal, nem entre os dois casais. Havia apenas disputa, cobiça e um pouco de ódio. Claro que o gato não sabia disso tudo, mas sabia que havia alguma coisa errada e, acima disso, sabia que ninguém ali ia matar sua fome.





Logo na mesa ao lado, um homem dormia babando enquanto seu companheiro permanecia inerte, perdido, embaralhando as cartas que tinha na mão e rodando os olhos esporadicamente pelo bar, procurando um novo oponente. A garrafa vazia na mesa e o copo cheio do homem acordado mostravam que o homem dormindo deve ter bebido um pouco demais durante o jogo dos dois. Pior: mostravam que o homem acordado provavelmente ainda tirou vantagem da situação da bebedeira do outro e de sua sobriedade para vencer o jogo. Obviamente, o gato não sabia disso tudo, mas se pudesse questionar-se, questionar-se-ia sobre como animais iguais podem ser assim, tão diferentes. 


Na última mesa estava sentada uma mulher. Esguia, loira e bonita. Constantemente recebia elogios e cantadas dos companheiros homens daquele bar fétido. Parecia nem ouvir. Seu semblante estava fechado, uma pequena ruga entre os olhos. O gato sabia que ela refletia sobre algum assunto sério, mas queria saber o que. Pela primeira vez dentro daquele ambiente, soltou um miado. 

O miado só teve efeito sobre esta mulher. Ela enrijeceu as costas e apurou os ouvidos. Então olhou pra trás, procurando a proveniência. Avistou o bichano, escondido atrás do pé da mesa de sinuca. Tão magro que mal aparecia. Tão marrom, que quase se camuflava. A mulher sorriu e então se levantou abruptamente. O bichano deu um passo pra trás, já preparado para tentar a sorte em outro lugar, onde os seres humanos não fossem tão estranhos ou não estivessem presentes. Talvez uma lata de lixo próxima. Com sorte, um rato passaria no seu caminho. 

Foi quando muito vagarosamente, como se temesse que o bichano se apavorasse e corresse, a mulher estendeu um pote de leite na direção dele e outro, com sobras de atum. O gato salivou quando sentiu o cheiro, mas ainda estava olhando fixamente no fundo dos olhos castanhos, como o pelo dele, daquela mulher. Os dois animais trocaram olhares por um momento ou dois. A mulher inclinava a cabeça para encarar aquele gatinho tão simpático, magrinho e indefeso. Queria poder adotá-lo, mas sua vida confusa não permitia afeições ou se manter muito tempo em um lugar só. Queria poder ser normal. Ter uma casa pequena, um gato e comer pipoca. Queria poder ser feliz, mas não podia. Não agora. 

Não aguentando mais, o gato deu um passo à frente, esfregando-se nas pernas da mulher. Ela afagou a cabeça do bichano. Então chorou. Uma lágrima salgada caiu no meio da cabeça do gato, que olhou pra cima, surpreendido. Ela só queria ser feliz e ele também só queria que ela fosse. Por um momento o gato se sentiu amado. Em todos seus anos gatunos, nunca foi alimentado e afagado. A liberdade não paga a falta de amor. Fechou os olhos, perdido na felicidade que era sentir alguém coçar atrás das suas orelhas.

Então, o movimento gostoso parou. O gato demorou mais alguns segundos para abrir os olhos e sair do seu transe proporcionado por momentos de amor. Quando o fez, se viu sozinho. Não havia mais sinal da mulher. Olhou em volta, perdido e desiludido. Casais jogando carta, homem embaralhando-as e outro dormindo. A mulher misteriosa e benevolente que o trouxe tanta felicidade momentaneamente não estava mais lá. 

Chorando baixinho, o gato voltou-se para seu manjar. Não sabia o que pensar. Não conseguia decidir se o ser humano era uma espécie maravilhosa ou terrível, mas adiou a conclusão para seu próximo devaneio enquanto vagasse sem rumo e com muita fome.

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