Personificação da Crise

(texto de 2009)


Às vezes eu tenho crises.
Mas só de vez em quando.
Tá, um pouco mais frequentemente do que eu desejaria.
Ok, quase sempre.
O tempo todo, para dizer a verdade.
Aliás, honestamente, acredito que é mais fácil contar as vezes que eu não tenho crises.
Talvez eu seja a personificação da crise. A crise com olhos, boca, nariz, pés, mãos...
Se algumas pessoas são "metamorfoses ambulantes", se a fulaninha é a "bondade em pessoa", por que eu não posso ser a "crise personificada"?

— Oi, eu sou a crise. Também atendo pelo nome de Clara.



Vai ver é alguma doença desconhecida. Além do meu nome ser tão parecido com crise (mesma quantidade de letras, começa com a mesma letra, mesma quantidade de vogais e consoantes), pode ser que seja um problema sério que a medicina desconheça.

— Bom, a senhorita é portadora da Síndrome de Inclinação à Colapsos Anormais de Conflitos e Conjunturas. Ou, resumidamente, SICACC.
— Ai, doutor! Isso é sério?
— Pode vir a ser. Mas, no momento, é só uma propensão a ter crises.
— Oh, não me diga!

Não me diga, seu doutor, que eu tive que te pagar para o senhor me dizer o que já está carimbado na minha testa?

— Vai passar em sete dias?
— Não, senhorita. Vai se agravar em sete dias.
— Qual é a sugestão médica, então?
— Sei lá, ainda estamos examinando o caso.

E aí eu voltaria pra casa sem um tostão furado no bolso e sabendo exatamente a mesma coisa que eu já sabia antes.

Será possível que eu seja a única pessoa no mundo com esse problema? Deus queira que sim (pois não desejo o que sinto pra ninguém!), mas acredito que não. Não vejo como! Provavelmente deveríamos criar um grupo como AA ou MADA. Chamaria-se PCDA (Pessoas com Crises Demais Anônimas), ou alguma coisa assim. Eu seria a membra mais fiel, apesar de sempre aparecer escondida. Me chamariam de Miss Freaky, ou algum codinome similar.

Será que eu ficaria curada ou a tendência aos surtos é uma coisa genética, que nunca sairá do meu DNA? Enquanto houver mundo haverá motivos para surtar. E depois disso? Vou surtar na vida após a morte, na vida propriamente dita? Sou tão inconstante assim?

Sou.

Acredito que cheguei num nível onde me encontro dependente das minhas crises. Elas são minha casca. Me deito delas, me cubro com elas e me alimento delas. São tão parte de mim quanto qualquer outra coisa, como dedos ou orelhas. Quisera eu que elas fossem um apêndice ou dente siso, que podem ser retirados por não fazerem muita falta.

Provavelmente minha vida seria bem mais fácil se eu não estivesse ocupada tendo surtos o tempo todo. Mas eu não sei tirar meu siso, ou meu apêndice. Muito menos minhas crises.

Não me passem mais crises! Não me contem suas dúvidas! Não abram o coração com suas angustias! EU NÃO QUERO SABER! Eu já tenho as minhas próprias para cuidar, e as suas só dão força para as minhas crescerem, crescerem e dominarem cada pedacinho de mim. Existenciais, românticas, escolares... Vai ver que, de uma maneira MUITO indireta, até mesmo a crise econômica é coisa minha.

Ai, meu Deus, fiquei mal.
Com licença, esse texto eu termino depois.

Comentários

  1. menina, tbm to nessas, em crise desde que me conheço por gente, trocando uma crise por outra; a atual é a crise dos 30

    www.tofucolorido.com.br
    www.facebook.com/blogtofucolorido

    ResponderExcluir
  2. Ahhhh eu adorei o texto! Eu sabia das crise dos 30, dos 40, mas esses dias eu descobri que existe a crise dos 25, bem, acho que vou viver em crise até o final da vida hehehehehhe

    Bjs, Mi

    O que tem na nossa estante

    ResponderExcluir
  3. Para esses momentos eu tenho que escrever, e graças a Deus pelas amigas que tenho.
    Desculpa, mas o texto todo eu ri, sou masoquista, não o contrário, até porque eu sei o que é isso, mas se eu não rir eu fico depressiva, então é melhor ser alegre que ser triste. Escolho não sofrer. Sinto, sinto muito, penso, penso demais, mas existe a hora para o pause, afinal amanhã tem mais, e inesperados.

    ResponderExcluir

Postar um comentário