Como a música influencia nossa escrita

Olá, amores!
Quem já leu algum livrinho meu ou conhece pelo menos os títulos, deve saber que a música tem muita influência nas minhas histórias. Afinal, não é a toa que eu tenho um livro chamado Acampamento de Inverno para Músicos (nem tão) Talentosos. Tiete! também é um livro muito musical e Chinelo e Salto Alto tem uma quote de música na abertura de todos os capítulos. E, além disso, todos os meus livros tem uma playlist lá no Spotify.
Mas, mesmo assim, o link pode não parecer tão claro. E, obviamente, nossos processos criativos podem ser diferentes e você pode ter horror só de pensar em misturar música com literatura. Se for esse o caso, talvez essa coluna não seja para você. Porque hoje quero falar sobre como a música influencia meu processo de escrita e me ajuda a produzir melhor.




A música funciona basicamente de três formas principais para mim: 
a) Música como forma de inspiração quando estou bloqueada As playlists são para que os leitores possam imergir na história, é claro, ma…

A coisa mais importante que você precisa saber sobre ser escritor

O título é sensacionalista, mas a mensagem não.
Então, senta que lá vem história...



Era uma vez um menino que queria ser escritor desde que se lembrava por gente. Vamos fingir que o nome dele é Patrick, só para fins didáticos. Ter um livro publicado era o maior sonho do Patrick e ele passava todo tempo livre que tinha disponível escrevendo, amando e elucubrando sobre como se tornaria um futuro bestseller. Anos se passaram e a vontade de viver como escritor nunca saiu do coração do nosso querido Patrick. Depois de muita batalha e trabalho, uma editora de porte grande finalmente notou seu trabalho e o chamou para conversar sobre o livro.

Empolgado, Patrick ficou dias sem dormir até o dia da conversa com o editor-chefe. Até comprou roupa nova. Imprimiu 256 cópias do livro. Salvou uma cópia no pendrive. Até fez backup da nuvem. Saiu de casa cedo, para não correr o risco de se atrasar. No caminho ficou pensando "poxa, finalmente alguém vai me dar uma chance e realizar meu sonho".


Chegando lá, Patrick foi recebido pelo editor. Simpático, mas atolado de trabalho, deu a entender que não tinha muito tempo e que precisava fazer uma reunião bem rapidinha. O peso das 256 cópias do livro que Patrick carregava na mochila piorou com essa constatação, mas ele se sentou na cadeira indicada pelo editor e sorriu.


Eis que se dá um diálogo como este:

Editor: Poxa, Patrick, dei uma olhada no seu livro. Ele parece bastante promissor, mas tem algumas coisas que eu acho que a gente teria que mexer. Em uns 40% do livro, eu diria. Uma parte do final me incomodou, mas acho que tem potencial..

[Patrick se remexe na cadeira, incomodado. Em sua mente, está berrando: "Como assim ele quer mexer no meu livro? No meu sonho? Passei anos trabalhando nele! Ele está perfeito".] 

Editor: Acho que a gente teria que cortar algumas palavras também, porque um livro desse tamanho vai ficar com o preço de capa muito caro e vai acabar vendendo pouco. Sem falar que tem bastante barriga, né... Uma edição vai cair muito bem...

[Patrick afrouxa a gravata, já passando mal de nervoso. Como assim ele quer CORTAR PALAVRAS? E como assim o livro dele não ia vender? Era o sonho dele! O sonho! É claro que o livro seria bestseller automaticamente! Tudo que o editor precisava fazer era publicá-lo]

Editor: A nossa grade está meio apertada, então se formos mesmo publicá-lo, estamos falando de um processo que vai demorar aí entre um ano e um ano e meio...

[Patrick quase pula da cadeira, sem saber o que fazer. Nossa, mas estava tudo errado naquela reunião! Nos seus sonhos o editor dizia que seu livro era incrível, que estava pronto para publicação e que iam publicá-lo em menos de dois meses! Como é que a história era tão diferente, na realidade? Destruidor de sonhos! Era isso que aquele editor chefe era]

Editor: Então, eu não sei o que você acha da ideia de publicá-lo conosco, se está disposto a fazer alguns ajustes e concessões... 

[Patrick sorri um riso nervoso, se controlando para não descarregar tudo aquilo que estava pensando. O editor saca que tem alguma coisa errada. Afinal, anos de mercado. Ele já tinha pesquisado Patrick online e visto que, apesar de escrever há muitos anos, ele não parecia ter muito conhecimento de como o mercado literário funcionava. Não participava de eventos. Não fez cursos profissionalizantes. Vivia fechado na bolha do seu sonho]

Editor: Nós vamos voltar a entrar em contato, então.

[Patrick continua a reunião fingindo que está tudo bem, mas quando se vê sozinho, do lado de fora da editora, dá um grito de ódio. Como aquele homem mau ousava falar tão mal de seu livro? Para que ele tinha sido chamado para aquela reunião? Achava que ia assinar um contrato, mas teve que ouvir esses disparates!]

Patrick vai para casa. Chora. Xinga. A pior parte? A editora nunca entra em contato com ele novamente. Por que? Ora, as respostas são diversas. Os erros de Patrick foram muitos. Mas vou resumir tudo com uma única frase de impacto (porque estou sensacionalista hoje)

O LIVRO DE PATRICK É UM PRODUTO
E ADIVINHA? SEU LIVRO TAMBÉM É UM PRODUTO


Caiu uma bomba do lado daí da tela? 
Tomara que ela sirva para chacoalhar seu mundo.

Sonho. Doce e maligno na mesma medida, ele é aquele negócio que mora no nosso coração e que dá o sentido para nossa vida. O sonho de ser escritora nasceu comigo e talvez ele também more dentro de você. É difícil desvincular a ideia de sonho dos nossos livros, quando eles estão prontos. Para piorar, ser escritor no Brasil é algo que a gente é ensinado desde pequeno a acreditar que é um 'sonho'. Uma utopia. Faz parte de uma realidade que não existe. ONDE JÁ SE VIU, querer ser escritor no Brasil? 

Produto. Aquele negócio que as empresas vendem, sabe? Colocam na loja, botam uma etiqueta com preço e fazem marketing para as pessoas comprarem, darem de presente e indicarem para os amigos. 

O problema do Patrick e o problema de muitos escritores brasileiros é não entender que, acima de ser seu sonho, o livro é um produto. Que precisa ser vendido. Que precisa vender muito, na verdade. Que precisa ser mexido, editado e imensamente trabalhado. Que não está perfeito (e talvez nunca fique perfeito). Que precisa ser comercial. Que não vai ser só publicar e ele vai ser um bestseller automático. Que as utopias que a gente cria na nossa cabeça tem que servir como combustível para que um dia a gente chegue lá, mas que nossos sonhos quase sempre não condizem com a realidade imediata.

Seu livro pode ser um sonho e um produto ao mesmo tempo. Para isso, basta você colocar na cabeça que não é pra ter APEGO ao livro. E que ser tiver que editar, picotar e até deletar tudo e fazer de novo para que ele seja um produto bom, TUDO BEM. Porque, afinal, seu sonho não é viver de escrita? Quanto melhor o produto, melhores suas chances. 

Por favor, não seja como o Patrick. Não se lance nesse mercado sem estudá-lo de verdade. Sem participar de eventos. Sem fazer cursos. Sem conversar com outros escritores mais experientes que você. Sem conversar com profissionais da área. Entenda como tudo funciona! Vai ser bem melhor para você :)

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