O escritor versus o mundo

Outro dia eu pedi sugestões de temas para os vídeos no meu canal e uma leitora pediu para eu gravar um vídeo falando sobre se, na minha concepção, os escritores são seres mais observadores que o resto das pessoas. Eu fiquei pensando muito nisso e o vídeo sobre o assunto sai nesse domingo, então corre lá no canal e se inscreve para não perder. 

Mas, eu gravei o vídeo, editei e agendei no canal e continuei pensando no assunto. Quando vi fiquei o dia inteiro percebendo os meus pequenos detalhes de conexão com o mundo e resolvi que minha coluna também precisava ser sobre o assunto, porque o buraco é bem embaixo. E, se você escreve, talvez você entenda perfeitamente meu sentimento. 




Nem sei por onde começar a escrever isso porque talvez isso só faça sentido na minha cabeça, mas vamos lá. Eu sinto, e sempre senti, que estou intensamente conectada com o mundo, o tempo todo. E isso é muito pesado de carregar nas costas. Eu lembro de quando eu tinha uns 7 anos e tinha uma tartaruguinha virada de cabeça para cima no quintal do vizinho e eu passei o dia inteiro tentando desvirar a tartaruga (o vizinho não estava em casa). No final das contas eu consegui junto com meu pai, mas fiquei tão nervosa que até chorei. O bagulho me traumatizou de uma forma porque eu me lembro da minha tia dizer "Clara, você não pode carregar o mundo nas costas".

Foi a primeira vez que eu percebi que as pessoas não funcionavam da mesma maneira que eu nessa conexão com o universo e foi a primeira vez que eu percebi que era mesmo muito pesado. Mas não aprendi nada, porque continuei carregando o mundo inteiro nas costas, feito um Atlas com muita dor de estômago. Fui estudar direito só para passar mais dificuldade e RI só para chorar o dia inteiro, pensando em como era difícil fazer parte desse mundo e me sentir tão conectada com ele. Foram dias e noites tentando entender meu lugar no mundo e tentando me blindar de tanta dificuldade, ao mesmo tempo que me sentia uma completa hipócrita e bitolada por tentar fugir dessa conexão. Haja remédio tarja preta e haja dias olhando pro teto e pensando "Deus, por quê? Qual é a razão da minha existência?"


Demorei muito tempo para perceber que essa extra-sensibilidade era um dos fatores que me fazia ser uma escritora. E isso faz muito sentido, porque eu SEMPRE fui escritora, desde pirralhinha. Se você ainda não viu, tem um vídeo no meu canal onde eu mostro o primeiro livro que eu "escrevi", com 4 anos e poucos meses. Essa conexão com o mundo era o que me permitia ser inspirada constantemente pelas pequenas coisas e o que me fazia perceber, mesmo no meio de tanto caos e de tanta dificuldade, as coisas boas que a vida tem para oferecer.

E eu ainda tenho dias muito difíceis, nos quais a conexão intensa como mundo me faz sentir todo o peso dele. Mas com a ciência dessa hipersensibilidade, eu entendi que não preciso me blindar, eu só preciso olhar para o outro lado. Eu até falei no vídeo que sai domingo, mas tudo isso ficou ainda mais claro para mim depois que eu assisti o filme "Beleza Oculta", que fala exatamente dessa conexão e sensibilidade. Vejam:
Cerca de um ano depois, começou a acontecer uma coisa comigo. Eu podia estar na rua ou no metrô, e começava a chorar. [...] Era um choro nascido de outra coisa, de um tipo de conexão profunda com tudo. E eu percebi que era a beleza oculta.
Se você sente essas coisas que eu mencionei nessa coluna, recomendo que você assista o filme. E se você não sente, recomendo que assista mesmo assim, porque ele é uma graça.


Um comentário:

  1. Me identifiquei, porque também sou assim. Me entristeço quando vejo as tristezas e injustiças pois queria fazer algo. Como você mesmo disse, a dor de carregar o mundo nas costas.

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